(Imagem Ilustrativa)

Com a excessiva simplificação da linguagem, muitas das expressões populares estão quase desaparecendo. Porém algumas delas ainda são lembradas, mesmo após cinco séculos e por detrás delas há muita história.

Quando nos referimos a um indivíduo sonso, fingido, hipócrita, dissimulado, ou seja, santinho apenas na aparência, podemos usar a expressão “santo do pau oco” para defini-lo. Parece injusto com o verdadeiro santo, mas há uma razão para o uso.

No Século XVIII, o Brasil vivia o ápice do Ciclo do Ouro. As históricas cidades mineiras, como por exemplo, as atuais Ouro Preto, Tiradentes e Mariana, eram ricas em função da exploração do ouro e de pedras preciosas.

Também havia forte influência religiosa na Metrópole (Portugal) e no Brasil Colônia. Então, numa região rica se multiplicavam as construções de igrejas e a consequente ocupação de seus interiores com imagens e pinturas.

Quem já visitou algumas das cidades históricas brasileiras percebeu que há muitas imagens de santos confeccionadas em madeira. Tais imagens costumavam viajar longos trechos, atravessar oceanos.

Durante o Ciclo do Ouro, Portugal povoou as cidades mineiras com todo tipo de autoridades, com o intuito de fiscalizar a produção e circulação das riquezas. Além de custear essa estrutura que explorava o ouro, além de outras taxas, pagava-se para a Coroa o “Quinto”, ou seja, vinte por cento de toda a produção era recolhida como tributo. O ouro também tinha que seguir um caminho obrigatório, desde as casas de fundição, onde o metal era fundido em pequenas barras, até chegar aos portos com destino a Portugal (depois para a Inglaterra, para pagamento de dívidas).

Então, inconformados com tais tributos e o alto custo de vida na região, muitos tentavam driblar os coletores de impostos. Segundo acredita-se, criou-se um descaminho para o ouro, colocando-o dentro de imagens de santos esculpidas em madeira: os santos de pau oco. A técnica de retirar o cerne da madeira tinha como objetivo deixar as imagens mais leves, para que fossem carregadas em andores, durante as procissões. Mas como entre origem e destino não havia procissão, passaram a voltar um pouco mais pesados, recheados com ouro em pó.

O uso do pau oco parece não ser só mais um jeitinho brasileiro. Diz-se que já no Século XVI, no período das Grandes Navegações era prática comum no transporte de moedas falsas entre os portugueses.

A alusão às fragilidades ou deficiências dos santos (imagens) em Portugal também aparecia na expressão mais antiga ainda: “santo de pau carunchoso”. Carunchoso significa, evidentemente, carcomido por carunchos, o que é bonito ou virtuoso por fora, mas podre por dentro. Uma expressão similar a nossa.

Então, a dissimulação, as tentativas de enganar, já vem de longe, pois não são somente as imagens de santos feitos em madeira que têm “cara-de-pau”.

Numa outra Coluna, como prometido, continuaremos a explorar um pouco mais da riqueza de nossa língua, seus vocábulos e expressões.

Adnelson Borges de Campos
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