Religiosidade

Via Sacra rezada em polonês mantém tradição e integra descendentes de imigrantes

Comunidades como da Vila Prohmann e da Colônia Iguaçu reúnem falantes do idioma polonês para juntos lembrarem o percurso da Paixão de Cristo. (Texto e Fotos: Larissa Drabeski/Levante Fotografia)

É tarde de sexta-feira e, aos poucos, as pessoas vão chegando à Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Vila Prohmann. O grupo, com pouco mais de 20 pessoas, é composto, em sua maioria, por idosos que vêm manter a tradição de rezar a Via Sacra em polonês, que acontece nesta paróquia todas as sextas-feiras da quaresma.

Quem conduz os fiéis movidos pela fé e pelo amor à tradição é seu Antônio Przybyszewski, que lê as orações de um pequeno livro em capa preta, todo escrito em polonês, uma verdadeira relíquia. Ao lado do seu Antônio está a esposa Adolfina, juntamente com as filhas Adjenira e Bernadete. Ele cresceu falando polonês, o português foi aprender a falar só na escola. Mais tarde, quando foi servir ao exército, num contexto em que a língua estrangeira era proibida, teve de deixar de falar polonês.

No entanto, nunca se esqueceu de como rezar o Pai-Nosso: “Ojcze nasz, któryś jest w niebie, święć się imię Twoje…”. Foi a partir dessa oração que relembrou o que sabia e aprendeu a ler outras coisas. Ele explica que a reza é simples, talvez não use de palavras rebuscadas, mas a dedicação em relembrar a via crúcis de Jesus na língua dos antepassados é tocante. “É com o polonês nosso, mas a gente se esforça”, justifica seu Antônio. O esforço vem no sentido de preservar uma tradição cada vez menos frequente.

A via Sacra em polonês se repete na sexta-feira santa, às 13h na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e às 14h na Colônia Iguaçu.

Identidade polonesa

Cenas como essa, de rituais trazidos por colonos imigrantes, eram frequentes em nossa região até poucas décadas atrás. Agora, estão ficando mais escassos. Por outro lado, gerações mais jovens, que não aprenderam o polonês dos seus avós e que não mantém as tradições antigas dos imigrantes, encontram outras formas de aproximação com a Polônia. Assim, a tradição se renova e a identificação com a polonidade encontra novos significados.

Em um cenário de mudanças, observar rituais tradicionais ajuda a entender a presença polonesa em São Mateus do Sul e região. A etnia foi fundamental na formação da cidade, graças à colonização ocorrida no final do século XIX e início do século XX. A presença dessa etnia se manifesta por meio de manifestações culturais tais como a língua, a dança, os ritos religiosos, a culinária, arquitetura, entre outros.

Uma das principais colônias polonesas do Paraná, é possível considerar que a imigração polonesa em São Mateus do Sul ainda não foi estudada a fundo. Ao analisar a produção acadêmica sobre o tema – considerando exclusivamente as pesquisas desenvolvidas no âmbito do Mestrado ou Doutorado – há trabalhos de boa qualidade que buscam entender aspectos da imigração polonesa na região.

Uma das pesquisas foi a tese da área de Geografia intitulada “Paisagem cultural e espaços de representação. Análise da colônia de Água Branca, município de São Mateus do Sul/PR”, de Liliane Monfardini Fernandes de Lucena, defendida em 2015 na UFPR. Já a dissertação de Rosane Sousa Staniszewski, “Uma investigação sobre o ensino da matemática nas escolas polonesas em São Mateus do Sul, Paraná”, defendida em 2014, fruto do Mestrado em Educação em Ciências e em Matemática, volta-se à mesma colônia a fim de investigar vestígios históricos do ensino nas sociedades-escolas fundadas pelos colonos poloneses.

Além dessas dissertações, há trabalhos de conclusão de curso e livros publicados sobre esta temática. No entanto, os estudos ainda são poucos, há muito a ser analisado e muito a ser observado. Existem práticas tradicionais em comunidades do interior do município que ficam mais raras ano a ano, há histórias preciosas que estão apenas na memória daqueles que a vivenciaram. É preciso que alguém as escute e registre-as.

Pesquisa junto a famílias polonesas

Com o objetivo de compreender como a comunicação atravessa a constituição da identidade polonesa entre descendentes de imigrantes, desenvolvo atualmente a pesquisa “Comunicação e construção da identidade polonesa em São Mateus do Sul”, junto ao Mestrado em Comunicação da Universidade Federal do Paraná, sob orientação da prof. drª Valquíria Michela John. Para o desenvolvimento desta pesquisa, estou percorrendo diversas comunidades, igrejas, grupos culturais, além de entrevistar famílias, a fim de coletar informações sobre o consumo cultural dos descendentes de todas as idades.

Todos os descendentes de imigrantes poloneses estão convidados a participar, respondendo a um questionário disponível no link goo.gl/xAuEHo.

Após a conclusão do estudo, essas informações serão públicas e vão ajudar a compreender a presença da etnia polonesa no Paraná. Dúvidas ou sugestões podem ser encaminhadas para o e-mail larissadrabeski@gmail.com.

Larissa Drabeski

Larissa Drabeski

Jornalista com MBA em Administração e Marketing, é cofundadora da empresa Levante - Fotografia e Comunicação, que oferece serviços diversos de marketing e comunicação empresarial. Contato: larissadrabeski@gmail.com
Larissa Drabeski

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