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Vilões e mocinhos na História – Barão do Serro Azul, o herói do mate

Barão do Serro Azul. (Imagem Ilustrativa)

A melhor definição que encontrei até hoje para significar a história, partiu do primeiro livro que li na universidade intitulado “Apologia da História”, do grande historiador do século XX Marc Bloch. Ele escreveu a última obra de sua vida, um clássico da historiografia e da Escola dos Annales, durante sua estadia num campo de concentração nazista, Bloch era judeu e morreu executado em 1944. Nele, o escritor define que “a história é a ciência dos Homens no tempo”. Ou seja, a história é feita por Homens – com H maiúsculo para que se incluam as mulheres nisso – feitos de carne e osso, que cometem falhas e erros, portanto, é um tanto perigoso definir heróis e mocinhos históricos. Contudo, também aprendi com Bloch, que a história é subjetiva, e que, estando apoiado em métodos científicos, o historiador tem o poder, e o papel, de interpretá-la.

Por muito tempo, Ildefonso Pereira Correia, conhecido como o Barão do Serro Azul, foi tido como vilão da história paranaense. A narrativa de um Barão traidor foi sustentada por longos anos pelo discurso político. Seu nome foi apagado da história, e sua imagem banida do cenário paranaense. O resgate histórico só veio a partir da década de 40, quando Leôncio Correia, jornalista e escritor, publicou o livro biográfico “O Barão do Serro Azul”.

O Barão nasceu no ano de 1849, em Paranaguá. Filho de um proeminente militar, cresceu num meio político permeado por acalorados debates entre conservadores e liberais, escravocratas e abolicionistas. Se formou no curso de Humanidades no Rio de Janeiro, e se tornou um grande empresário paranaense. Sendo ele o maior exportador de erva-mate do Paraná e maior produtor de erva-mate do mundo, se destacou também como ativista político de ideais abolicionistas, por esse motivo, conquistou muitos aliados e muitos inimigos.

Durante a Revolução Federalista, em 1894, Curitiba foi tomada pelas tropas rebeldes de Gumercindo Saraiva. Afim de evitar o rastro de destruição, saque, violência e estupro, deixado pelos maragatos, o Barão, diante da fuga de proeminentes políticos como Vicente Machado, Ermelino Leão e do comandante militar Pego Jr., assume o posto de presidente da Junta de Curitiba para tentar um acordo com os rebeldes. Por esse motivo, foi acusado de traição. Quando na verdade, arrecadou e entregou dinheiro aos rebeldes, boa parte dele oriundo de sua fortuna, como acordo para não haver derramamento de sangue na capital abandonada a própria sorte.

Apontado como traidor, foi preso e assassinado por oficiais da escolta durante o percurso que fazia de Curitiba à Paranaguá no km 65 da estrada de ferro, quando estava sendo levado à julgamento para o Rio de Janeiro. Executado com uma bala na cabeça, seu corpo foi abandonado ali mesmo, e só foi encontrado no dia seguinte.

Na sua volta, em 5 de maio de 1984, Vicente Machado foi aclamado na capital paranaense. A história está cheia de nuances como essa, hoje, o Barão do Serro Azul tem seu nome no Livro dos Heróis da Pátria, no Panteão da Pátria em Brasília, sua vida virou o filme “O Preço da Paz”, e sua história ainda é estudada e resgatada por historiadores, jornalistas e admiradores. Pois ele não foi só o maior produtor do mundo, mas um verdadeiro herói do mate, vítima de interesses políticos mascarados sob um discurso patriótico. Hoje fico por aqui, e até a próxima viagem pessoal!

Jéssica Kotrik Reis Franco
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